Jamila e o Legado Salimpour

POR NATÁLIA ESPINOSA

jamila bellydanceNo ano passado o mundo tribal perdeu uma de suas matriarcas: Jamila Salimpour. Posso dizer sem medo de errar que quase todas as pessoas que têm o mínimo de contato com o estilo tribal sabem pelo menos o seu nome e o seu grau de importância para nosso estilo de dança. Todos nós sabemos que Jamila plantou a semente do que hoje chamamos de estilo tribal de dança do ventre, ou somente estilo tribal ou dança tribal.

Mas a grandiosidade do trabalho e do caminho desta mulher vai muito além. Jamila é sinônimo de força, engenhosidade, sensibilidade. Foi uma mulher que abriu diversas portas não somente para o tribal, mas também para a dança do ventre como forma de arte – uma arte à qual ela dedicou sua vida.

O primeiro contato de Jamila Salimpour com a cultura árabe foi através de seu pai, que era da marinha e, por causa disso, esteve em bases no Egito, Tunísia e Síria. Ao voltar para os EUA, ele levou para casa gravações de músicas do Oriente médio e tentou imitar os dançarinos orientais que viu. Podemos dizer que os primeiros passos de Jamila foram suas tentativas de imitar seu pai nesta atividade. Porém, não foi com a dança do ventre seu primeiro trabalho como artista profissional: ela trabalhou no famoso circo “Ringling Brothers Circus” quando tinha apenas 16 anos, e seu número contava até com um elefante!

A dança do ventre voltou à vida de Jamila quando tinha por volta de 20 anos, através dos filmes da Golden Era da dança do ventre. Fascinada pela dança de estrelas como Samia Gamal, Tahia Carioca e Naima Akef, ela tentava também imitá-las no saguão da casa onde morava. Coincidentemente, a senhoria da casa era Armênia e reconheceu o talento de Jamila, levando-a para dançar em festas e eventos. Mas essa ainda não seria a profissão definitiva de Jamila. Ela também trabalhou como joalheira e abriu um café.

JamilaFoi somente aos 31 anos que Jamila começou a dançar em um club (algo como uma boate) árabe, tendo sido também coproprietária de outro club, o famoso Bagdad Café. Nessa época conheceu aquele que viria a ser seu terceiro marido e pai de sua filha Suhaila, o percussionista persa Ardeshir Salimpour. Ardeshir tentou impedi-la de dançar com ameaças de violência física, porém por conta da situação financeira Jamila foi impelida a dar aulas de dança do ventre.

Não havia material, metodologia, nomenclatura para o ensino formal de dança do ventre e de snujs. Perseverante e corajosa, Jamila tomou para si esse trabalho. Estudou minuciosamente todos os toques de snuj que escutava e inclusive desenvolveu algumas variações, o que culminou em seu primeiro manual de snujs (que vinha com uma fita para as pessoas escutarem o que estavam lendo)! Ela também viajou para estudar com dançarinos de diversas modalidades de dança oriental e publicou diversos estudos e pesquisas nessa área. Sua importância é inegável também para a dança do ventre: ela foi, até onde se sabe, a primeira pessoa aqui no ocidente a dar nomes aos movimentos e sistematizar o ensino da dança do ventre. Se você sabe identificar movimentos quando ouve oito maia e queda turca, agradeça à Jamila!

Bal Anat 2Em relação ao tribal, podemos dizer que ela foi a grande responsável, através de seu grupo Bal Anat, pela estética e pelo formato de coro. Esse grupo foi criado para caber no contexto da Renaissance Fair, uma feira de recriacionismo medieval. Não fazia sentido colocar seus alunos para dançar com as roupas de dança do ventre das estrelas de cinema: precisava fazer algum sentido dentro da estética histórica. Então, ela pesquisou em revistas, pinturas, fotografias antigas e até poemas buscando referências de como se vestiam e adornavam as sociedades, comunidades e tribos que tradicionalmente dançavam o que veio a ser dança do ventre. E, dessa forma, Jamila inseriu sua arte em um meio inusitado. Voltando algumas linhas neste parágrafo vocês podem ver as palavras SEUS ALUNOS, e não SUAS ALUNAS. Jamila abriu as portas para um homem dançar em sua trupe, e esse homem virou um dos grandes ícones do tribal: o maravilhoso John Compton.

John ComptonKatarina BurdaO Bal Anat contava com diversos artistas: músicos, malabaristas e dançarinos de vários estilos dentro da dança oriental. John Compton fazia sua dança com a bandeja, Katarina Burda dançava a dança da deusa mãe com sua máscara (não é à toa que uma de suas alunas mais famosas, Zoe Jakes, traz constantemente esse elemento em seus trabalhos), até a pequena Suhaila dançava. Era um espetáculo onde o espectador tinha uma pequena aula sobre dança oriental. Era dito que estes artistas eram “de várias tribos”, embora a dança ainda fosse dança do ventre e folclore. Jamila nunca disse que sua dança era tribal, mas sem dúvida foi a responsável, devido à sua criatividade, pelo nascimento da ideia de uma dança do ventre diferente do que se via nos filmes.

Jamila e SuhailaSua filha Suhaila seguiu o caminho da dança do ventre, dando aulas, desenvolvendo um estilo próprio e criando a Salimpour School, que forma alunos em seu formato e também no formato de Jamila. Jamila deu aulas até poucos anos antes da sua morte. Quando visitei Suhaila em seu estúdio em 2016, presenciei uma amorosa conversa entre ela e sua mãe ao telefone. Ao desligar, Suhaila pediu desculpas por sua mãe não estar presente e disse que Jamila estava doente, já estava com 90 anos. O respeito e devoção de Suhaila por sua mãe e por seu legado é impressionante.

A Salimpour School é um retrato da beleza deste legado: mulheres de todos os tipos muito focadas, alegres e disciplinadas trabalhando juntas para mostrar uma dança do ventre de muita qualidade com embasamento histórico e leitura musical afiada – o formato de Suhaila é menos “solto” que o de sua mãe, mas os movimentos são os mesmos. É um ambiente que inspira reverência.

jamila fim do texto
É com essa reverência e com essa alegria que precisamos nos lembrar de Jamila Salimpour, e que sua história nos inspire não somente na dança, mas também na vida. Que nós possamos nos espelhar nessa mulher que seguiu seus sonhos e a certeza de seu coração, que não teve medo de inovar e de quebrar barreiras, que sempre encontrou uma forma de levar a arte que tanto amava para o máximo de pessoas possível. Obrigada, Jamila!

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